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O Método Issa de Gestão de Passivos: as 4 fases

Janaína Issa GomesJanaína Issa Gomes · OAB 124.655/MGPublicado em 23 de outubro de 2025Atualizado em 1 de setembro de 2026

A maior parte das empresas endividadas negocia na ordem errada. Liga para o banco, pergunta quanto deve, ouve um número, pede desconto e assina o que vier. O problema não é a coragem de negociar — é que a conversa começa com o banco sabendo tudo e a empresa sabendo nada.

O Método Issa inverte essa assimetria. São quatro fases, executadas nesta ordem, e cada uma entrega um documento. A regra que sustenta tudo é simples: não se senta à mesa antes da fase 3. Quem negocia na fase 1 está pedindo desconto; quem negocia na fase 4 está apresentando uma posição.

A diferença entre as duas coisas costuma ser de dezenas ou centenas de milhares de reais no mesmo passivo, com o mesmo banco, no mesmo mês.

As 4 fases, em uma tabela

FasePergunta que respondeEntregável
1 · Raio-XQuanto a empresa deve de verdade — e para quem?Mapa de Passivo
2 · LaudoQuanto desse saldo não deveria estar aí?Laudo de Auditoria Contratual
3 · PosiçãoOnde existe poder de barganha — e onde não existe?Matriz de Posição
4 · MesaO que se pede, em que ordem, com qual número?Comando Estratégico

Fase 1 · Raio-X — o passivo real, não o informado

A primeira fase existe porque quase nenhuma empresa sabe o próprio passivo. Sabe o que os bancos dizem por telefone, que é coisa diferente. O Raio-X levanta a posição real a partir de duas fontes: o relatório de Empréstimos e Financiamentos do Banco Central, obtido pelo Registrato, e os contratos originais de cada operação.

O que aparece nessa fase e costuma surpreender:

  • coobrigações — avais que o sócio deu e que figuram como dívida dele, não da empresa;
  • operações esquecidas — limites, cartões e garantias contratadas anos antes e nunca encerradas;
  • dívidas já cedidas — o credor não é mais o banco, e isso muda inteiramente com quem e como se negocia;
  • classificação de risco — como cada operação está registrada, o que antecipa a disposição do banco de negociar.

⚠️ Negociar sem o Raio-X é aceitar como verdade o número que a outra parte informou. Nenhuma negociação séria, em nenhum mercado, funciona assim.

Detalhamento completo em Fase 1 · Raio-X.

Fase 2 · Laudo — quanto do saldo não deveria estar ali

Com o mapa em mãos, cada contrato é auditado. Não é leitura genérica: é a verificação de quatro frentes objetivas, que ou estão presentes ou não estão:

  1. Taxa real acima da contratada — o que o contrato diz e o que a evolução da dívida efetivamente aplicou.
  2. Taxa acima da média BACEN — comparação com a taxa média praticada no mercado para a mesma modalidade, no mesmo período. É o parâmetro objetivo que sustenta a alegação de abusividade.
  3. Multa acima de 2% — limite legal para relações de consumo, discussão recorrente em contratos empresariais.
  4. Cumulação de comissão de permanência com outros encargos moratórios — vedação consolidada na jurisprudência.

O produto é um laudo com score de abusividade por contrato. Esse número é o que transforma “acho que estou pagando caro” em uma posição defensável, e é também o que separa os contratos que valem revisão judicial dos que valem apenas negociação.

Detalhamento completo em Fase 2 · Laudo.

Fase 3 · Posição — onde existe barganha

Esta é a fase que praticamente ninguém executa, e é a que mais muda o resultado. Ela classifica cada contrato em dois eixos: o quanto o banco já provisionou aquela operação e a qualidade da garantia que a sustenta.

O cruzamento devolve quatro situações muito diferentes, que exigem estratégias opostas — e é por isso que negociar “o passivo” como bloco único costuma destruir valor. A matriz completa está em Fase 3 · Posição.

Fase 4 · Mesa — negociar com número na mão

Só aqui se fala com o banco. E se fala com três coisas que a outra parte não esperava: o passivo real levantado na fase 1, o laudo de abusividades da fase 2, e a leitura de posição da fase 3 — que informa o que pedir em cada contrato e em que ordem atacar.

O entregável é o Comando Estratégico: a sequência de atuação contrato a contrato, dizendo o que revisar judicialmente, o que negociar, o que aguardar e o que não tocar. Detalhamento em Fase 4 · Mesa.

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O método em números: um exemplo

Uma empresa com passivo declarado de R$ 1,2 milhão em três contratos. É o tipo de caso em que a diferença entre negociar na fase 1 e negociar na fase 4 fica visível.

Contrato AContrato BContrato C
ModalidadeCapital de giroConta garantidaFinanciamento de máquina
Saldo informadoR$ 520 milR$ 410 milR$ 270 mil
SituaçãoVencido há 8 mesesVencido há 2 mesesEm dia
GarantiaAval dos sóciosNenhumaAlienação fiduciária do bem
Quadrante (fase 3)Provisão alta, garantia fracaProvisão baixa, garantia fracaProvisão baixa, garantia forte
Estratégia (fase 4)Desconto expressivo — por últimoResolver cedo, antes de deteriorarPreservar; buscar prazo, não desconto

Sem o método, a tendência natural é começar pelo contrato A, que é o que gera as ligações diárias e o maior desconforto. Começar por ele é o pior movimento possível: é o de maior margem, e resolvê-lo primeiro sinaliza liquidez, encarecendo B e C.

Com o método, a ordem se inverte — B primeiro, enquanto ainda há disposição e antes que a operação piore; C preservado, porque ali não há barganha; A por último, com a maior pretensão de desconto. Mesmo passivo, mesmo banco, mesmo mês.

Quando o credor não é mais o banco

Uma variação que a fase 1 costuma revelar e que muda todo o restante: a operação já foi cedida a um fundo ou a uma empresa de recuperação de crédito.

A lógica de negociação se inverte em um ponto essencial. O banco avalia a proposta contra o saldo que carrega e contra a provisão que constituiu. O fundo avalia contra o preço que pagou pela carteira — que costuma ser uma fração do valor de face. Isso normalmente amplia a margem de desconto, mas cria uma exigência nova:

  • documentação da cessão — contrato de cessão e comprovação da notificação ao devedor, antes de qualquer pagamento;
  • verificação da cadeia — carteiras são revendidas, e é preciso saber quem é o titular atual do crédito;
  • cuidado com a prescrição — pagamento parcial de dívida antiga pode interromper prazo e reativar a cobrança inteira.

Por que a ordem não pode ser alterada

Cada fase depende do produto da anterior, e pular etapa não acelera — inverte o resultado:

Se pular…O que acontece
A fase 1Negocia-se sobre um passivo que não é o real, e coobrigações aparecem depois do acordo assinado
A fase 2Paga-se o saldo cheio, incluindo o que era indevido e já não poderia ser cobrado
A fase 3Pede-se desconto onde não há margem e aceita-se pouco onde havia muita
A fase 4Assina-se a primeira proposta apresentada, que é sempre desenhada pelo credor

Quando o método não se aplica

Honestidade sobre limites faz parte do método. Ele pressupõe que existe empresa em funcionamento e passivo que comporta reorganização. Não é o caminho quando:

  • há bloqueio judicial em curso e a urgência é de horas — nesse caso a ordem é outra, e está em as primeiras 48 horas depois do bloqueio;
  • a atividade já cessou e a discussão real é sobre responsabilidade dos sócios;
  • o passivo é integralmente tributário ou trabalhista — outra disciplina, outros instrumentos;
  • a empresa precisa de recuperação judicial, e o que se discute é o momento de pedi-la.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva o método completo?

As fases 1 e 2 dependem da obtenção dos documentos: o relatório do Banco Central é imediato para quem tem certificado digital, e os contratos, quando não estão em mãos, podem ser exigidos do banco. A fase 3 é analítica e rápida uma vez feito o laudo. A fase 4 depende da contraparte. O gargalo quase sempre é documental, não analítico.

Dá para fazer o Raio-X sozinho?

A obtenção do relatório SCR, sim — é gratuita e o passo a passo está publicado. A leitura do relatório e o cruzamento com os contratos é onde a coisa fica técnica, porque envolve identificar coobrigação, modalidade e classificação de risco.

O método serve para dívida de pessoa física?

A lógica das quatro fases é a mesma, mas a matriz da fase 3 muda: provisionamento e garantia funcionam diferente em crédito PF. O Método Issa foi construído para passivo bancário empresarial, que é onde a assimetria de informação é maior.

Preciso entrar com ação judicial?

Não necessariamente. O laudo da fase 2 serve tanto para fundamentar revisão judicial quanto para sustentar negociação extrajudicial — e boa parte dos casos se resolve sem processo, justamente porque a posição está documentada.

O que é o Índice Issa de Exposição?

É um instrumento de triagem, com doze perguntas de sim ou não, que indica o grau de exposição patrimonial antes de iniciar o método. Está disponível em Índice Issa de Exposição.


Fontes


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Sobre a autora
(OAB/MG 124.655) atua em direito bancário empresarial, com foco em gestão de passivos, auditoria contratual e proteção patrimonial de sócios e avalistas. Atende empresas em negociação e revisão de contratos bancários a partir de Belo Horizonte/MG.

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Janaína Issa Gomes
Quem escreve

Janaína Issa Gomes

Advogada fundadora · OAB 124.655/MG

Advogada inscrita na OAB sob o nº 124.655/MG, dedicada ao direito bancário empresarial. Atua na auditoria de contratos bancários, na gestão e reestruturação de passivos e na proteção patrimonial de empresas com dívidas acima de R$ 100 mil. Escritório em Belo Horizonte, com atendimento em todo o Brasil.

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